Histórias de Moradores de Araçatuba

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores da Cidade.


História do Morador: Noburu Sato
Local: São Paulo
Publicado em: 11/09/2003






História de Vida

História:

Seu Noboro, então vamos dizer de novo, seu nome, local e data de nascimento. Meu nome é Noboro Sato, local na rua Galvão Bueno, 268, Restaurante Sato. Mas onde o senhor nasceu? Eu nasci na cidade de Araçatuba. Data? 1944, 19/10/1944. Nome dos seus pais? Nome do meu pai: Hideo Sato... Hideo? É, e Mitsui Sato. O senhor conhece a origem da sua família, a história da sua família? No Japão é família descendente... da parte do meu pai foi mais ligado a criação de bicho-de-seda, a família em si, era uma família já de tradição, de longo período lá, como fornecedor, que no Japão chama-se, como se fosse semente, do bicho-de-seda, mas seria a larva, né, para criação de bicho-de-seda. E onde que eles moravam lá no Japão? Na província de Hamagata. A parte da minha mãe também, só que a família da minha mãe já era mais lavrador, toda lidava mais com agricultura em geral, né?

E que é que eles cultivavam? Olha, acho que naquela época, não sei dizer o que cultivava, mas em geral acho que verduras, arroz, né, mais assim a parte de alimentação, da subsistência da época, mais era verduras, legumes e... Eles eram proprietários de terra? Era deles a terra? A terra sim, da parte dos meus pais era, porque lá tem uma tradição, no Japão tem uma tradição de seguir sempre a descendência, não era arrendatário, não. Mas o seu pai era o filho mais velho? Não, meu pai não, meu pai era o terceiro filho, na seqüência dos irmãos. Quantos irmãos ao todo, era da família do seu pai? Mau pai, olha, são oito. E o primeiro filho, o segundo também imigraram? O mais velho e o meu pai. O meu pai era o terceiro, o segundo e o quarto, dos homens, no caso, era o caçula, ele ficou no Japão, o segundo também ficou no Japão, da parte do meu pai. Dos seus tios? É, dos meus tios. O primeiro veio? O primeiro veio, tanto é que ele radicou aqui no Brasil, veio como imigrante, meu pai também veio como imigrante. Seu pai veio em que data como imigrante?

Foi aquilo que eu te falei, 38... 37 pra 38. Senhor Sato, o senhor sabe porque eles vieram pro Brasil? O objetivo deles era, como se diz, conseguir, de alguma forma, ganhar dinheiro, de alguma forma, pra buscar sua autonomia, porque no Japão, na época não era muito bom, assim a parte econômica dos japoneses não era muito bom na época, uma superpopulação que existia, né? Então, ali era uma luta muito grande pra própria subsistência dentro das famílias que tinham, então cada um estava procurando alguma forma de ser independente, mas pra buscar a independência, cada um tinha que buscar alguma coisa diferente. E como tinha uma forte propaganda na época... Quem fazia a propaganda? O próprio governo japonês fazia uma propaganda muito forte, mostrando as facetas da imigração, mostrando as facilidades de alguns imigrantes que já vieram na época, até que eu falei, que confundiram...

Que era o pessoal que vieram, pegaram alguns deles lá, como exemplos lá, fizeram uma propaganda maciça lá, pra ver se o pessoal se habilitava pra vir como imigrante no Brasil. Eles fizeram uma promoção muito grande na época. O que é que eles ofereciam aqui nas terras do Brasil para os imigrantes? Aqui, o governo japonês só dava assistência da parte documental, essa parte, e alguma coisa até a embarcação inicial, tinham exames que tinha que ser feito, esse exame médico que era rigoroso, na época não podia entrar quem tinha, como é que chama... doença de vista... Ah, glaucoma? Tracoma, esses tipos de doenças que tinha, tanto é que minha mãe ficou nesse exame, aí teve que ficar seis meses lá, praticamente aguardando a vez até efetivar o tratamento, pra poder embarcar no navio subseqüente. Então, teve meu tio que devia ter vindo junto com os meus tios, da parte da minha mãe e dos meus pais, mas acabou vindo, meus tios vieram na frente e acabou defasando por seis meses, quase um ano... A viagem dela?

A viagem dos dois. Seu pai também ficou? Meu pai ficou também, porque eram recém-casados, o objetivo deles era realmente... olha como é que foi o casamento: lá no Japão tinha o costume de casar, que é o seguinte, casamento assim por padrinho, apadrinhamento simplesmente, tem pessoas assim que fazem arranjo de casamento, mostrando cada uma das famílias, eles também vê mais ou menos, o casal que daria, o nível de cada um, então fazia aquela apresentação, e como tinha essa propaganda muito da imigração para o Brasil, aí meu pai ficou interessado, e ele começou a procurar uma noiva pra vir para o Brasil, com o mesmo objetivo também, ser imigrante aqui no Brasil por uma temporada, mas todos eles tinha um sentimento de que “não, eu vou lá para o Brasil, eu vou ganhar, e com o que eu ganhar lá, eu vou ser independente de volta”, objetivo de ir e voltar para o Japão.

Nunca de ficar aqui? Inicialmente, eles não tinham intenção de ficar aqui no Brasil, de forma alguma, o objetivo deles era simplesmente, era passagem mesmo pra eles, ir lá, ganhar um dinheiro, com esse dinheiro ele ia retornar lá e fazer a independência dele lá. Mas a propaganda dizia isso? Não, aí que está, a propaganda era interessante. Eles mostravam assim, as fazendas, a fartura, mostrava as galinhas, as criação de animais que tinha aqui, a turma catando ovo em um monte de lugares assim, aquela propaganda, e a turma vendo lá e passando quase fome, na época estava muito ruim no Japão, como um todo a parte econômica estava ruim. Então essas propagandas, muitas pessoas começaram a se interessar e deixar o país pra fazer uma fortuna talvez, né, uma oportunidade assim de ganhar dinheiro no outro país, mas sempre com aquela intenção, de voltar de novo, retornar pro país, ir e voltar, tanto é que aí, você vai saber depois que não foi bem assim a história, ficou aqui, minha mãe se tornou praticamente uma brasileira. E o assentamento, como é que era, vocês iam pra que terras?

De fazendas, indicado já assim de fazendeiros que existiam, veio como imigrante, mas é como uma indicação, mais ou menos com um certo destino já, ia lá pra Brasil, devia ir no estado, que tinha estado de São Paulo, no princípio era mais São Paulo, daí tinha Paraná também, mas princípio era quase tudo São Paulo, concentrado pra cá, mas já estava mais ou menos indicado para as fazendas que deveria ir, cada um dos imigrantes, já estava distribuído, mais ou menos, lá. Mas não iam ser donos de arrendamento? Não, não era arrendatário não, ele ia como imigrante mesmo, pra trabalhar na fazenda, eles nem sabia o que era trabalhar na fazenda de café, na época era tudo a lavoura aqui do Brasil, a lavoura básica era o cafezal, então sabia que iria vir tratar de café, mas nem sabia que jeito era o pé de café, nunca tinha visto o que era café, né? Pra dizer a verdade, eles não conhecia o que era cafezal, nunca tinha visto o que era um pé de café, sabia que era uma árvore que dava fruto, mas não sabia o que era café.

Eles, acho, que nem tinha tomado café, viu? Não era costume. Mas eles vieram pra cá porque na época tinha o seguinte: cuidava do cafezal, e com o tempo, depois de um certo período, eles poderia adquirir uma certa independência na lavoura, eles vinha como imigrante pra tratar do cafezal, mas tinha um período de carência, não sei quanto tempo era esse período de carência que era obrigatório ficar no cafezal, não sei se era três, cinco anos, aí não posso precisar qual a carência, mas tinha um período de carência, ia lá e tinha que cuidar do cafezal, essa era a condição. Era colono? É colono. Bastante japoneses no mesmo lugar? É, são diversas famílias... Na mesma fazenda? Não, distribui-se em várias fazendas diferentes, não é na mesma fazenda, em diversas fazendas, mas, no caso minha família, como tinha meus tios que vieram na frente, meu pai veio na fazenda que estava o meu tio, eles vieram um pouquinho antes, né, mas já sabia o destino, mais ou menos, da onde seria a participação deles. Esse tempo de carência, depois que venceu o que é que aconteceu?

Aí, eles vieram aqui pro Brasil e começaram trabalhar na fazenda e, primeiro era cafezal mesmo, depois, em paralela, alguma atividade da lavoura, os fazendeiros dava chance de alguma coisa, como meeiro, plantar alguma coisa, né, plantar alguma coisa assim, pra própria subsistência de cada um, pra cuidar da subsistência de cada um. Agora, com o tempo, depois de vencida a carência, eles começaram a arrendar a terra, ou trabalhar como meeiro, ou como empregado mesmo da própria fazenda, mas a maioria procurou ser independente, e arrendar um pedaço de terreno.Muitas vezes tinha desmatamento, na época era mata virgem, no interior de São Paulo tinha muita mata virgem, na época que eles chegaram, em 30 e pouco, mais ou menos, até no ano 40 tinha ainda mata virgem, agora nem se vê mais isso, atualmente, mas na época tinha muito mata virgem, então teria que primeiro fazer o quê?

Entrar com uma certa condição, fazer o desmatamento, entrar com o serviço de desmatamento, ele tinha o direito de cultivar aquele terreno por um ano, dois anos, gratuitamente, em troca do serviço de desmatamento. Aí, eles plantavam, daí, uns e outros, alguns tiveram sorte, que era plantação de algodão, não de café, café é dos fazendeiro, trabalhava no plantio; na época que meus pais vieram, 30 e pouco, 40 e pouco, era plantio de algodão que estava aqui no Brasil. No auge? No auge do cultivo, então maioria dos imigrantes, de certa forma, cuidaram do algodoal, plantação de algodão, mesmo, em paralelo logicamente, começavam a plantar arroz, feijão, essas coisas aí também, mas o básico era mais algodão.

Aí, com o tempo foi mudando, não era mais algodão, começou a ser outro tipo de plantação. Senhor Sato, lá atrás um pouquinho, quando o senhor estava contando da vinda do seu pai pro Brasil, o senhor falou que ele arrumou uma moça pra casar, ele não queria vir solteiro, não podia, como é que é essa história? Então, ele começou a procurar uma noiva, com o mesmo objetivo dele, a intenção pra vir pro Brasil. Aí procurou, começou a procurar noiva, através daquelas pessoas que fazem casamento, sempre tem um padrinho pra esse tipo de coisa. Aí, arrumou um padrinho lá que começou a procurar pra ele e encontrou justamente minha mãe: “Olha, tal lugar lá...”

Lá tem várias cidades, não é bem cidades, seria municípios vizinhos, né, podemos chamar interno: “Lá tem uma pessoa interessada, assim também, tal.” E no fim calhou de indicar a minha mãe, que na época também queria vir pro Brasil, que meus tios estava com intenção de vir, da parte da minha mãe, né, na realidade, os meus avós também deveria ter vindo com meus tios, com o tempo, o objetivo de vir também, mas acabou ficando e veio meus tio na frente, e no fim meus avós acabou ficando no Japão, nunca veio pro Brasil, a parte da minha mãe, no caso, né? Não vieram por quê? Por causa da guerra? Depois começou a guerra, e tinha ficado um dos filhos, ficou lá, o caçula que estava lá, e começou a guerra, e começou a viver por lá mesmo, começou a ajeitar por lá mesmo a situação, mas sempre a intenção era de talvez um dia, o meu tio que era o filho mais velho trazer pra cá, os meus avós, e acabou ficando por lá mesmo.

O senhor nasceu na colônia? Eu, é eu nasci, falei que na cidade de Araçatuba, mas sempre em torno de Araçatuba, foi numa fazenda que eu nasci. Quando eu nasci, sou terceiro na seqüência, tinha mais duas irmãs acima de mim, então quando eu nasci já era num sítio, onde já estava fazendo a plantação de algodão, aí já estava plantando como arrendatário, quando eu nasci. O senhor passou a infância aí, no algodão? É. O senhor lembra como é que era? A casa... Aí tem cada coisa interessante, normalmente a criança, ou levava junto pra trabalhar na roça, ou tem que ficar em casa, ou deixar em casa de alguma forma. Então, eu lembro de alguma coisa assim, alguns detalhes que quando era criança, tinha talvez uns quatro anos, três ou quatro anos, nessa fase aí, minha mãe me contava: “Não, você fica aqui em casa, logo nós voltamos do trabalho e tal, você fica esperando aqui.”

Aí diz que eu falava: “Não, pode deixar que eu fico, fico junto com as galinhas e os porcos aí esperando”. (risos). Tem umas passagens que eu ficava com umas galinhas. Mas os outros iam trabalhar, os outros maiores? Aí as minhas irmãs, que era acima de mim, né, no caso, elas já iam junto com os meus pais já, às vezes eu ficava, ou senão minha irmã, ficava junto comigo. Ficava sozinho com as galinhas, mesmo? Às vezes eu ficava, maioria das vezes minha irmã acompanhava, às vezes, só muito raras vezes eu ficava assim... Não tinha medo? Olha, eu não lembro, porque era criança, eu não lembro de medo, desse detalhe... Aconteceu alguma coisa fora do comum? Não, assim não lembro. Só lembro da queimada, porque esse é o local onde eu nasci, mas como nós mudamos em vários sítios diferentes, tinha queimada, o objetivo era o quê? Era fazer o desmatamento, pra depois entrar com a plantação. Na época era mais essa fase. Como era a queimada? Por exemplo, tem a mata virgem, tem que cortar algumas árvores, depois pôr o fogo numa certa área, delimitava a área, punha o fogo, essa é a queimada, no caso.

Aí, depois tinha que preparar aqueles troncos de árvores que sobrava, tinha que tirar, muitos dos troncos ficava, mas o grosso a gente tinha que derrubar, pra não dar sombra, senão a plantação não cresce. O desmatamento era o seguinte: tirar aquelas árvores grandes que tinha, a maioria das árvores, criar a área que pudesse fazer a plantação. E essa queimada... Na sombra não crescia nada. Qual o tratamento da terra, uma terra queimada? Então, a terra que normalmente você pega uma área assim desmatada, a terra ainda tem os ingredientes suficiente pra uma, duas, três, quatro, cinco vezes de plantações do mesmo tipo. Com o tempo a terra se vicia, então aí teria que entrar atualmente como nós chamamos, aqueles produtos que nós temos atualmente, produtos de insumos, na época não tinha nada de insumo, era na terra mesmo que se plantava lá. E esse fogaréu, como é que era senhor Sato?

Era muito fogo, como que era a queimada, o senhor via o fogo? Eu lembro de alguns flashes assim, que eu era muito criança na época, eu lembro de alguma coisa, a fumaceira, aquele fogo... E bicho? Tem região lá, que nós moramos na região da divisa de Paraná, lá tinha muitos animais: anta, jaguatirica, até onça, lá tinha naquela região, na época tinha, mas é coisas assim que a turma foi caçando, foi eliminando praticamente essa parte aí, mas tinha na época, 1940 e pouco, quase 50, que eu nasci em 44, né, em 47, mais ou menos, 48, agora o meu pai sim, 38, então, na fase que eles iniciaram lá tinha muitos ainda, animais selvagens, na beira do rio Paraná, quando moramos em Pereira Barreto, próximo do ano 50. Ah, vocês moraram em Pereira Barreto? Na cidade e também no interior, chamava Cinco Ilhas. Como chamava, Cinco Ilhas? É, Cinco Ilhas chama lá. Por que Cinco Ilhas? Acho que devia ter algumas ilhas assim no Rio Paraná mesmo, que parecia talvez seja ilhas que tinha alguma coisa dentro do próprio rio, né?

Criava... Fazenda Cinco Ilhas, é bem conhecida pela colônia japonesa que convivia aquela época lá, a maioria dos japoneses assim, de certa idade, lembra dessa fazenda, porque muitas pessoas passaram, se não passou por lá, passou próximo de lá, de Pereira Barreto, aquela também foi uma colônia muito grande de japoneses, que conviveram com o plantio de algodão, a maioria foi algodão mesmo, então as pessoas daquela época conhecem muito bem a região de Araçatuba, Birigui, Penápolis, por lá, Lins também, depois aquela região, próximo do Rio Paraná, que seria Pereira Barreto, onde tem atualmente a Usina Hidrelétrica de Jupiá no Rio Paraná que tem, como é que chama mesmo, não é Jupiá, Ilha Solteira, então Ilha Solteira, aquela região, muito dos imigrantes japonês passaram naquela região, pelo menos passagem tiveram por lá, a maioria. E morando nessas fazendas, como era a escola?

Tinha na fazenda? Eu lembro quando entrei na escola, quando tinha sete anos, acabei defasando um ano, porque na minha família só falava japonês, meus pais não sabia nem o que era português, falava uma palavra português, sempre no interior, não tinha aquela amizade com as pessoas, ficava isolado, ficava na fazenda mas bem isolado da vizinhança, quando fazia plantação, esse tipo de plantação, arrendatário, entrava na região de desmatamento, então ficava bem isolado, então tinha aquela casinha bem afastada e quando moramos em Cinco Ilhas, era uma fazenda desmatada, mas como entrou bastante, ao mesmo tempo, tinha muitos vizinhos, fizeram o desmatamento em conjunto, praticamente, então tinha um núcleo, onde eles fizeram uma escola, de brasileiro seria, escola brasileira, escola nossa, né? Era brasileiro? Tinha um professor, só que não deu pra aprender quase nada, começou, acho que uns seis meses, mais ou menos, o professor deixou lá de vir também, acabou com a escola, e eu tinha uma certa dificuldade porque eu não sabia nada falar em português, aí, nós mudamos depois pra cidade de Pereira Barreto, desse interior, fomos pra cidade mesmo, de Pereira Barreto, foi trabalhar na fiação de bicho de seda, foi uma indústria que tinha lá, extração de fio de bicho de seda, pra fazer tecido, uma fábrica de fiação, tinha duas fábricas, na época. E nós entramos trabalhando aí.

O senhor também? Não, eu era criança. Fazia fio só, não fazia tecido? É, só fiação, extração do fio pra fazer tecido, mas não sei se eles chegaram a fazer tecido também, fazia alguma coisa, mas era muito pouco, o objetivo era mais a fiação. E nessa cidade tinha escola? Tinha, tinha escola, tinha grupo escolar e tinha até o curso ginasial, eu lembro que tinha lá em Pereira Barreto. O senhor teve que recomeçar a primeira série? Aí eu comecei, com oito anos, aí tive uma série de dificuldade, aí estava indo na escola japonesa, lá tinha escola japonesa, a professora lá do grupo escolar chamou minha mãe, e disse: “Olha, ou você estuda pra fazer seu filho aprender o português, que é a língua do país, a mais importante, né, ou fazer aprender português e fazer desistir o japonês, porque está prejudicando, fazer as duas coisas não ia dar certo”, porque eu sabia falar mais o japonês só, diz que eu não ia conseguir acompanhar a escola lá.

Então, a professora aconselhou a deixar, a abandonar a escola japonesa, pra só ficar na escola brasileira, só. O senhor gostou dessa decisão, ou achou ruim? Eu era criança, eu nem sabia o que era bom o que era ruim, então... Comecei a aprender na escola, todas as palavras que eu aprendi, eu aprendi na escola, tudo praticamente, que eu não sabia nada, em casa só falava em japonês, aprendi tudo na escola, quer dizer a partir daquela escola que comecei a aprender português. O que o senhor aprendeu primeiro, o senhor lembra? Eu lembro da cartilha do primeiro ano, começando por lá: “A macaca é má.” (risos) Começou decorar por aí, eu nem sabia que a macaca é má, mas eu via a figura lá, macaca é esse animal, começava a associar, porque você não sabe o que é que é macaca. Porque você não sabe nada de português, então falava: "Gato." E você seguia a figura, né, do gato lá na cartilha e associa o animal gato: "Esse aí é o gato." E começa a aprender por aí, por associação, da figura do animal, do objeto pra associação, e você vai se virando ao longo do tempo. Eram muitos meninos japoneses?

Na escola onde eu estudava? Na escola. Pereira Barreto tinha várias famílias japonesas lá, porque lá tinha uma colônia muito grande na cidade de Pereira Barreto mesmo, mas era uma mistura, a maioria mais brasileiro, mas tinha bastante alunos também descendente de japoneses. Como é que fazia pra manter a disciplina na escola? Disciplina que você diz é... A ordem, enfim, os professores eram rigorosos, severos? Você diz na escola brasileira? É. Na época é bem diferente do atual, as professoras na época, elas pegavam a régua, ou senão um pedaço de vara, de bambu mesmo, e elas aplicavam castigo, a professora chegava lá, aluno começou a falar muito dentro da aula, chamar a atenção se desobedecesse, a professora chegava dava reguada mesmo, pra valer, pegava aquele pedaço de vareta, de bambu e dava pra valer, batia mesmo, e na época era normal, a professora chegar e impor esse castigo, de bater com régua, era coisa normal.

Quantas vezes eu vi a professora quebrar uma régua batendo num aluno, assim na pancada batia, né? Na época é normal isso aí, e todo mundo aceitava, achava que isso não era coisa anormal, pra manter uma certa disciplina, né? Agora tem algumas que quando eu estava mais na terceira série, quarta série, a professora ficava nervosa lá, às vezes chegava lá e castigava com régua, quando o aluno não conseguia se virar, ela fazia chamada oral, não conseguia responder... As pessoas na cidade aceitavam bem os japoneses ou ficava meio assim? Tinha discriminação? Olha, eu não senti discriminação, porque eu era muito pequeno pra sentir discriminação, mas na época da minha infância, como estava a guerra, recém terminada a guerra, tinha uma aceitação mais ou menos, assim, da parte dos brasileiros, em relação aos japoneses, mas fazia aquelas brincadeiras, principalmente do Eixo, né, que era Brasil...

Não, Brasil não. Japão, Itália e Alemanha do Eixo lá, então fala: “Japonês e Calabrês foi o diabo que te fez.” Então, sabe, as criançadas gostava de brincar, as crianças na escola fala: “O japonês, japonês, calabrês foi o diabo que te fez”, sempre essa brincadeira fazia, a gente nem ligava, era normal, a gente nem brigava. Mas vocês entendiam? Achava que quando falava isso aí: “Japonês calabrês, foi o diabo que te fez”... A terminologia do que vem a ser diabo, em japonês também que tem, mas eu sabia o que era perfeitamente o que estava falando, mas eu levava tudo na brincadeira. Pra dizer a verdade, eu não achava assim tão ruim não, eu levava tudo como se fosse uma brincadeira, mas também criança é criança, nem sabe o que está falando direito, então a gente levava tudo na brincadeira.

Mas, em que momento a sua família percebeu que não podia mais voltar pro Japão? Não era bem que não ia voltar. Tanto é que na época, todos eles tinha a intenção de voltar, começou sofrer aqui no Brasil, não era bem aquela propaganda que eles fizeram, que você simplesmente chegava e catava ovo no terreiro, não era bem isso aí, pra plantar também tinha frutas que eles mostrava na propaganda, né, colhendo frutas, a parte da colheita já. Eram desenhos? Não, é filme mesmo assim que eles mostravam... Documentário? É documentário que mostravam de imigrantes que já estavam aqui, colhendo frutas, tal: "Olha, puxa vida, tem tanta coisa, tem tanta fartura, vamos mudar daqui, vamos arriscar lá, pra ver se a gente consegue...” A propaganda fazia que ainda saía ganhando dinheiro, vendendo frutas, e na época o pessoal nem pensava... Pensava mais na produção de colher, colher pra poder vender, vender é outro trabalho que dá na realidade.

Mas as pessoas nem imaginava mais isso, via aquilo lá e fazia o plano deles já levados de certa forma, mas o objetivo do governo japonês era esse aí mesmo, mandar o máximo de imigração lá, pra aliviar o país da carga que eles tinham, soltar o pessoal de lá pra outros países também, tanto é que não foi só no Brasil, mas deve ter ido pra Bahia, outros países do mundo, mas naquela época, o mais forte era aqui no Brasil mesmo que estava aceitando, também era mais distante, do Japão até aqui, né? Não tinha uma conversa do governo que dizia que quem saísse do Japão ia formar uma extensão do Japão no Brasil? Seria uma espécie de uma conquista de território? Não, esse tipo de coisa não tinha, na propaganda a única coisa que tinha só o incentivo de criar vontade de buscar uma alternativa pra melhorar a vida de cada um, mas o incentivo... E pra aliviar o Japão também?

Eles queria que muitos deles saíssem do país, pra desafogar o país inclusive, ter emprego, e eles conseguiram de certa forma... Quando veio seu pai, você sabe quantos vieram naquele navio? Olha, quantos vieram eu não sei não, mas deve ser uma quantia mais ou menos de uns 300, 500... Eu tinha perguntado em que momento as famílias perceberam que não havia condições pra voltar, que era pra ficar aqui mesmo... Porque, veja o seguinte, eles começaram logo de cara, eles já descobriram logo no inicio que não era bem talvez aquilo que eles estavam imaginando. O problema de desmatamento, o problema de capinar... porque primeiro foi o cafezal, então tinha que enfrentar pra cuidar do cafezal, uma coisa que lá no Japão não tem. Só aqui no Brasil que tinha na época, então tinha que enfrentar essa parte aí, mas eles tinha lá: “Bom, se eu consegui vencer essa etapa, então eu vou poder ser independente pra fazer plantação daquilo que eu quero.”

Então, isso incentivava no íntimo de cada um pra agüentar aquele período de cuidar do cafezal lá numa certa fazenda como imigrante que eles estavam lá, e mesmo havendo descontentamento talvez no íntimo de cada um: “Já que estou aqui, se eu voltar também que eu vou fazer? Qual a alternativa que eu tenho voltando lá também? Vou agüentar por aqui mesmo pra tentar vencer de certa forma.” Foi nesse intuito que eles acabaram ficando e não tinha jeito de voltar também, porque pra voltar, não tinha como voltar, então com todo aquele sofrimento que eles tiveram inicial, eles ficaram, só que eles acharam que ia ser rápido essa, muito passageiro eles achava, só que perdurou vário anos... Então, aqueles que começaram a fazer por conta própria, algumas coisa de plantio, desmatamento por conta própria, alguns deles realmente conseguiram ganhar com algodão, com a plantação de algodão. Meu pai mesmo, pra ganhar, num certo ano lá teve uma safra boa no plantio que ele fez. Na época tinha negócio de caminhão, dava até pra comprar caminhão e ainda sobrava dinheiro.

Só que a lavoura é ingrata, tem ano que bom tem ano que é ruim, se a safra for bom pra todo mundo o preço cai de tal forma que não fica compensativa. Então, vários fatores tinham, ia levando, mas acostumou de certa forma, anos, já dois, três, quatro, seis anos, e todos eles continuaram fazendo a mesma coisa por vários anos, até que, no caso aí, começou a diversificar um pouquinho a plantação, não ficar só no algodão, mas começou a entrar na área de legumes, tanto é que quando nós mudamos lá de Pereira Barreto, viemos pra região de Bauru, a última etapa antes de São Paulo, que ficamos lá de 52 até 59, ficamos por sete, oito anos lá, em torno de Bauru, cidade de Bauru, ali já nós fomos plantador de tomate, fizemos plantação de tomate e outros legumes gerais, mas a base era tomate; mas antes de ser tomateiro, nós mudamos lá de Pereira Barreto, para o município de Bauru, podemos chamar, aí nós entramos como meeiro, na plantação de tomate, já direto, meeiro, aí que nós começamos, era uma família de japoneses. Ficamos como meeiro e nós começamos a trabalhar junto, aí que começou. Alguma safra ia bem, teve safra que foi boa. Nessa época o senhor já ajudava ou ainda só ia pra escola?

Eu fazia o seguinte, no sítio fiz até terceira série, tinha um grupo escolar dentro da fazenda mesmo, a professora que vinha da cidade e estudava lá. Da primeira série até terceira série, fiz na escolinha da fazenda. Depois, aí tive que fazer a quarta série na cidade de Bauru, aí viajava de trem, lá do sítio tinha que pegar o trem pra viajar. Todo dia? Todo dia. Fazia a quarta série. Aí depois entrei no ginásio, na época tinha o ginásio, chamava, né? Agora é até oitava série, mas antigamente chamava primeira série até quarta série ginasial que chama, seria quinta à oitava série, que chama ginásio. Esse curso de primeira série ginasial até terceira série ginasial eu fiz na cidade de Bauru, todo dia eu viajava de trem, até chegar no trem eu tinha que andar em torno de mais ou menos quatro quilômetros quase dava. Ia pra cidade, estudava, voltava à tarde, andava esse trecho todo de volta pra casa... E quando chovia? Quando chovia tinha que enfrentar. Ia debaixo de chuva?

La debaixo de chuva mesmo. Mas teve umas fases interessante, apesar de que ser meeiro, não foi uma fase muito boa da parte de lavoura que nós tocamos, não foi uma fase boa, tanto é que logo que entrou como meeiro, não foi tão bem, meu pai resolveu entrar, tinha um fazendeiro que tinha cafezal, pegou lá cafezal pra cuidar de café, então praticamente entrou como se fosse colono de novo, aí que foi, entrou lá, tinha não sei quantos mil pés que tinha que tomar conta, tinha que carpir, cheguei a carpir também junto com meus pais na época de criança, eu ia mas eu tinha uma empreitada que eu tinha que carpir aquele pedaço que era destinado pra cada um. Então, tem que cuidar tudo aquele cafezal, então eu ajudava também, fim de semana, domingo, tal meus pais ia carpir, eu ia junto também, ia na escola, mas qualquer período que tinha livre eu tinha que ajudar, desde criança, carpir café, na época de colheita, então eu sei abanar café.... Como que era, quais eram as etapas do café, o que tinha que fazer primeiro? Do café? É limpar o terreno...

Primeiro tinha... depois de terminar a colheita, tem um cordão que eles chama, que eles deixam assim pra poder colher o café, eles preparam pra isso também, então tem que desmanchar esse cordão, todinho, aí começa nascer mato, então você tem que carpir mais esse café. Quando chega na época de floração, começa a criar o grão, o fruto do café, nessa fase você começa a fazer o cordão no meio do cafezal, tudo é bem preparado, o terreno pra poder café cair, ele não cair no meio da areia, então tem que deixar o terreiro bem durinho, bem raspadinho, pra você poder passar o rastelo, pra juntar o grão de café. Leva pra onde depois? O grão? O grão, depois de colhido tem um terreiro já preparado, cimentado, assim, que eles fazem já a preparação pra depois entrar no beneficiamento, mas antes de beneficiamento tem que fazer a secagem, tudo... uma certa técnica pra não perder a qualidade do café.

Na hora da colheita aquelas folhas cai junto, pedaço de galho, daí você tem que abanar e separa essa parte aí pra pôr no saco do café pra depois ser levado nesse terreiro de secagem, pra depois de secado é que vai levar pra ser beneficiado, só o grão, deu um trabalho. Enquanto isso, você estava fazendo que curso? Bom, quando eu estava nessa fase eu estava até a terceira série, depois eu fui até a terceira série do ginásio lá em Bauru, na cidade, mas nessa fase... aí que está, quando entrou na empreitada de cultivar o café pra fazendeiro, aí que começou, o fazendeiro deu uma área do terreno, falou: “Se vocês quiserem plantar, vocês podem plantar lá.” Aí tudo bem, daí meu pai gostava de plantar e começou a plantação de tomate, um monte de coisa começou a plantar, aí o fazendeiro viu que estava indo muito bem, aí tinha a colônia, aí o pessoal deu liberdade total, a gente pegava essas verduras e legumes que tinha e ia vender lá na colônia, aí surgiu a seguinte idéia, o fazendeiro falou: “Eu forneço tudo o que for necessário, insumo, tudo pra vocês, depois a gente deduz do custo do insumo aí tal, e o que tiver de lucro a gente racha”. Daí deu pra melhorar?

Aí sim, aí que deu certo, aí o que estava cuidando de cafezal, já diminuímos o lote e começou a cuidar mais da plantação. Com o tempo nós deixamos de ir pro cafezal, só ficamos na plantação de tomate e outros legumes que tinha, nessa base de meeiro, aí que deu certo. Deu certo porque numa das colheitas que nós fizemos deu muito certo, nós colhemos 300 caixas de tomate, assim, cada vez que nós colheu, dentro da semana, aí teve uma época que deu um preço muito bom no tomate, que é também sorte. Aí desse daí deu pra desafogar um pouco a parte financeira. Senhor Sato, como é que era a família do senhor, a mãe, o pai, como é que eles eram?

Você diz a parte da minha mãe, meu pai tinha uma educação até colegial, no Japão, minha mãe tinha primeiro grau, que seria a oitava série daqui, lá no Japão é obrigatório, na época era obrigatório, fazia até quando pudesse, minha mãe tinha o curso básico de primeiro grau, mas meu pai meu não, meu pai fez até colegial. Como é que era o dia a dia de vocês com a família? Quem que era a autoridade dentro da casa, era o pai ou a mãe? Difícil aí, viu? No fim, no fim, acho que foi mais a minha mãe que cuidou das coisas, na parte de rotina. Tanto é que nós mudamos aqui, quando assumimos aqui o pensionato, quem cuidou foi minha mãe. Meu pai deu carta branca pra minha mãe, ele se afastou, fazia outro serviço. Foi logo depois da fase da plantação de tomate que vocês vieram pra São Paulo?

É depois lá de Bauru, aí nós viemos aqui pra São Paulo. Que ano? Foi 1959. Por que vocês vieram? Olha, a intenção era a seguinte, minha irmã... tinha uma irmã mais velha, que o objetivo dela era abrir um salão, um instituto de beleza, tanto é que chegou a fazer curso lá em Bauru também. Então ela veio aqui em São Paulo, aí teve essa oportunidade de conhecer aqui que tinha aqui um pensionato que estava a venda, que é justamente aqui onde estou agora, aí resolveu comprar. Em Bauru também tinha, só que na opção, acabamos comprando aqui em São Paulo, aí mudamos toda a família pra cá. Ela veio antes então? Minha mãe, meu pai veio, veio tudo junto. Aqui era um pensionato? Era um pensionato, de lá já veio direto pra cá. Em 59 viemos tudo pra cá.

Mas a tua irmã não veio antes pra conhecer? Veio uma vez pra conhecer, mas quando ela veio o objetivo era de conhecer algum salão, voltado mais pra instituto de beleza. E o senhor sabe onde ela ficou, aqui, quando ela veio dessa vez? Olha, sabe que eu não sei onde ela ficou? Não, exatamente eu não sei... Sei que ela veio pra cá, aí já foi feito o negócio, aí meu pai veio de lá, aí fechamos o negócio, já mudamos já pra cá. Aí a família inteira veio morar aqui? Aí a família toda aqui. É uma casa grande, né? Aqui era um pensionato. Porque pra caber a família inteira mais os hóspedes... Ah, sim, nós tínhamos vários pensionistas aqui, aí nós pegamos acho que dois quartos, e ficou a família toda, preliminarmente ficou dessa forma. E quem eram as pessoas que se hospedavam aqui? Na época era mais estudantes, a maioria era estudante, depois vinha o pessoal que trabalhava em diversos ramos de atividades: no banco, no escritório...

Mas aqui tinham muitos pensionistas, mas eram mais estudantes e dentre esses daí o grupo maior era de descendente de japoneses que estavam aqui. Como era um pensionato japonês, tinha mais descendente de japonês. Mas tinha de outros também? Tinha, aqui na Galvão Bueno, só aqui tinha uns cinco, seis pensionatos. Só nessa Galvão Bueno. A maioria de japoneses. Não sei porque concentrou-se pensionatos de descendentes de japoneses, tomados conta pelos japoneses. Aí acabaram com as atividades rurais? É, praticamente lá acabou com a atividade rural. Tinha mais irmãos, mais novos que eu. Sou o filho mais velho, filho mais velho homem, no caso, aí tinha meu irmão e o caçula, o caçula era pequeninho ainda, era criancinha. Quando nós chegamos aqui eu tinha só 14 anos quando cheguei aqui.

O senhor lembra da cidade, qual foi o impacto? Eu não estranhei muito não, viu? Quando eu tinha 14 anos, desde mais ou menos 10 anos, eu já comecei na atividade de ser feirante já praticamente, lá em Bauru. Não falei que fomos tomateiro, lá? Então nós tínhamos que ir no mercado, nós éramos atacadistas, fornecedor de tomates pra revendedores lá. Desde aí, já desde de criança, eu já comecei ir junto, e fui acostumando. Com a cidade grande? É, então eu não estranhei tanto. E aí quando vocês vieram, pra que escola que você foi? Foi Colégio Paulistano. Atualmente já nem existe mais. A Faculdade Metropolitanas Unidas comprou, chamava Colégio Paulistano, é FMU agora, aqui na Rua Taguá. Ali tinha uma FMU que estava virada pra rua Taguá, mas agora tem frente pra dois lados. A FMU parece agora a faculdade, mas era Colégio Paulistano, chamava. Que curso você fez lá? Quando eu vim eu estava na quarta série ginasial, eu vim com bolsa de estudo.

Era pago? Esse Colégio Paulistano era colégio particular, era pago, mas em Bauru eu estudei também no colégio lá que era particular, eu era bolsista lá, quando eu fiz quarta série, primário, né, podemos chamar agora, porque naquela época ginasial e primário, que é diferente do atual... quando eu fiz a quarta série primária, eu ia mudar pra colégio estadual, porque lá era particular, mas lá o ensino até quarta série era gratuito, era colégio particular mas era gratuito. Eu ia mudar pra estadual, aí o diretor da escola era conhecido da minha madrinha, aí falou pra minha mãe: “Olha, se ele quiser estudar aqui, ele pode estudar até quando ele quiser, o curso aqui vai ser gratuito pra todo o tempo que ele ficar aqui. Eu não vou querer que aluno daqui vá pra outra escola.” É que eu fui primeiro aluno da classe, na época, nessa fase que eu fiz, quarta série lá. Aí, então ele falou: “Em vez de ele ir pra estadual, fica aqui, eu quero aluno bom aqui.” Eu ia quase, mesmo assim eu queria ir pra estadual, aí minha madrinha falou: “Fica lá, porque o diretor lá falou que você pode ficar lá e o diretor quer que você fique”.

Então, conselho da minha madrinha, acabei ficando lá, fiquei até a terceira série ginasial, mas nesse intermeio surgiu bolsa do MEC, mas foi fácil, porque era por nota, média, então eu consegui bolsa do MEC que dava direito até colegial, aí que quando eu vim, eu vim de bolsa, direto do particular pra particular de bolsa. E como é que foi a adaptação aí no Paulistano? Olha, eu era primeiro lá, quando eu cheguei no Paulistano eu já senti um pouquinho a diferença. O problema é que realmente teve um certo desnível de ensino. Na época, o que era na capital e o que era no interior, chegava aqui já não era o primeiro, já ficava acima da intermediária, entre a intermediária e o primeiro, mas não era o primeiro já. Eu senti esse baque aí, inicial.

Aí, quando cheguei e fiz a quarta série, falei: “Acho que eu vou ter que fazer a estadual.” Aí eu fui pra estadual, eu fiz no Roosevelt depois. O colegial eu fiz no Roosevelt, na São Joaquim. Aí fez cursinho ou não fez cursinho? Aí eu fiz cursinho, entrei na Mauá. Na época tinha ITA, tentei no ITA, na Poli, não consegui, acabei indo na Mauá. Mas, senhor Sato, quando o senhor mudou pra cá, que o senhor tinha 14 anos, estava na adolescência. O que é que tinha pra os rapazes fazerem no bairro da Liberdade? Aliás antes, onde era sua casa? Era aqui mesmo? Aqui mesmo. Só que logo em seguida, depois nós compramos um apartamento no Largo da Pólvora. Onde o senhor está até hoje? É. Aqui ficou só o negócio? Aqui ficou mais o pensionato. E o que tinha aqui no bairro pra se fazer?

De diversão? Diversão, naquela fase de adolescência, sempre tinha os bailinhos, né? Estava na moda, estava começando o bailinho. Fazia na casa dos amigos, aí fazia rodízio de bailinho, tinha muito nos pensionatos, tanto é que aqui nós fizemos muito bailinho, no próprio pensionato, aqui nós fizemos, aqui era salão, nós fazíamos..., tinha um rádio que tocava e a turma juntava e fazia bailinho. E tocava música japonesa? Não, música japonesa era coisa rara aquela na época,. Não tocava quase nada de música japonesa não. Que música que era? Era bolero, era mais bolero. Samba também, alguma coisa de samba, mas na época era mais bolero, "tcha-tcha-tcha" que tinha na época. Agora não, agora nem ouve mais, mas na minha época era bolero, "tcha-tcha-tcha"... E cinema, tinha no bairro? Aí que está, quando nós mudamos aqui, só tinha esse Hospital Brasília... o Hospital Bandeirante chamava Hospital Brasília. Só tinha esse hospital, mas só tinha o fundo, na frente só tinha o pátio. Depois que construíram aqui, aumentaram pra lá.

Mas era só uma fachada? Só tinha um pedacinho de um prédio lá que subia, na época tinha. O resto todo aqui era todo casas assim, sobrados, a maioria tudo sobrado mesmo, que era a maioria. Como eu disse, tinha vários pensionatos, região de pensionistas que tinha aqui, vários pensionatos, e tinha comércio, alguma coisa assim que tinha, mas muito pouca coisa, um barzinho aqui, comércio não tinha quase nada, tinha o cine, Cine Niterói, onde está passando Leste Oeste... O senhor foi alguma vez? Várias vezes nesse Cine Niterói, todo fim de semana quase ia assistir uma vez lá o cinema, tinha cinco cines, tinha aqui no bairro, só onde passava filme japoneses. Quais eram? Era o Cine Niterói, Cine Jóia, Cine Nipon, na rua Santa Luzia e tinha mais um cine que tinha na Brigadeiro.

E que filmes que passavam nesses cinemas? Filmes de japoneses, aqueles filmes de Samurai, na época estava muito na moda, toda semana vinha um filme novo deles, da produção deles, acho que eles produziam em série, acho, como se fosse novela aqui. Seriado? Não, não era seriado, cada filme é uma historia diferente, mas ele produzia como se faz atualmente uma novela, apesar de ser novela é uma hora de que passa quase em média, eles aumentaram aquilo pra uma hora e meia, aqui passa diariamente novela, não passa? Só que lá eles faziam filmes diferentes, histórias diferentes, mas em massa, produção em massa acho que era, tudo história diferente, nada repetitivo.

Mas eram histórias de amor, ou de guerra, ou de quê? Muito de amor, de guerra, mas tudo voltado da época do samurai. Então, por isso que eu falo, eu nunca fui no Japão até hoje, meus filhos já foram, minha filha e meu filho, o negócio aí do kendô eles foram, mas eu acho que eu até conheço a cidade de tanto eu assistir os filmes japonês, os vídeos que minhas irmãs, meus pais já foram, mas eu nunca tive vontade, pra dizer a verdade, de ir lá. Não sei porque também, nunca senti, assim: “Não, eu quero conhecer o país dos meu pais...” Não sei porque... Não tem vontade. Nunca tive, tanto é que essa última vez, meus filhos foram campeonato de kendô que teve lá no Japão, campeonato mundial que teve lá: “Vai lá Sato Por que você não vai?” Eu podia até ter ido, mas acabei não indo dessa vez também nesse mundial que teve, mas não sei porque, não sinto muita vontade assim de ir lá.... Senhor Sato, tinha carnaval aqui no bairro?

Tinha, tinha carnaval Passava todo fim de semana aqui, de sábado à noite praticamente, tinha treino antes do carnaval, mesmo, que tinha escola aqui debaixo, aqui, Unidos da Lava-Pés, depois eles criaram Unidos da Galvão. Teve uma escola aí da Galvão, teve... e que passava aqui na rua Galvão Bueno... Paulistano? Paulistano... Paulistano não sei, era anterior ao Paulistano até. Essas escolas da década de 60. Passava escola todo ano. Todo ano não, quer dizer, aproximava a época do carnaval, tinha o treinamento deles, eles passavam aqui nessa rua treinando.. Os japoneses só assistiam ou participavam? Esse Unidos da Galvão teve muitos integrantes descendente de japoneses que fazia parte da escola de samba. Você se lembra aqui perto tinha o Paulistano da Glória, que era uma gafieira? Lembro. Os japoneses iam lá? Tem uns outros que iam lá, acho que sim, mas eu não participei muito do Paulistano, acho que se eu fui no carnaval na época, eu gostava muito de carnaval, quatro noites estava participando. Aqui no bairro?

Ou no bairro, mas clube japonês que tinha, tinha muito, na própria Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, na década de 70, 70 e pouco. Eles faziam bailes carnavalescos, tinha a Casa de Portugal, tinha Liga Itálica, aqui no bairro mesmo. Como é que chamava? Liga Itálica. Liga Itálica? É aqui na Praça Almeida Júnior, agora acho que eles quebraram e construíram um prédio lá no lugar. Ninguém falou desse lugar, como é que era? Chamava Liga Itálica, e todo ano tinha bailinhos carnavalescos e tinha matinê também pras crianças, que eu lembro. E punha fantasia? Na época uns ou outros punham algumas coisas de máscaras. Não era muito fantasia, era mais à vontade, traje esportivo, porque na época, eu lembro que a gente entrava ainda tinha um cine, quando era no ano de 60 tinha cine aí que exigia gravata pra poder entrar, aqui em São Paulo.

O Cine Metro você tinha que ir de gravata lá, não deixava entrar sem gravata lá, sabia? Agora, acho até estranho já, né? O Cine Metro foi assim, tinha que ir de gravata. E aí no carnaval dava uma relaxada? Então no carnaval, quer dizer, ir esportivo já era (risos)... E tinha o que mais no carnaval, serpentina, essas coisas, confete? Usava-se muito lança-perfume na época, que atualmente nem existe, é proibido. Mas na época o que o pessoal gastava de lança-perfume era muito grande. E cheiravam já? E cheiravam também, mas... Senhor Sato, o senhor pegou o bonde aqui no bairro, ou quando o senhor chegou não tinha mais? Tinha, tinha bonde ainda que passava na Avenida Liberdade e ia até Santo Amaro esse bonde. Acho que foi um dos últimos pra ser tirado dali da Avenida Liberdade.

Eu sei porque eu moro aqui no Largo da Pólvora, meu prédio ficava na Avenida Liberdade, então ali passava bonde e fazia aquela barulheira até meia noite. E o bonde faz um barulho muito grande, a barulheira que dá, aqueles barulhos do ferro, do trilho... Até meia noite. Quem não estivesse acostumado não conseguia dormir direito, só o barulho do bonde de passar na rua. Foi um alívio depois que tiraram aquele bonde lá. É mesmo? Aí depois substituíram por ônibus? Daí foi só ônibus, depois veio o metrô. O metrô passa por baixo da Avenida Liberdade... O senhor lembra da construção do metrô? Ah, sim Porque nessa fase eu estava... foi em 70. Tanto é que eu até participei. Eu formei... eu participei da parte da iluminação, tanto é que muitas das estações do metrô, assim, como se diz, a iluminação tem muita coisa aí em conjunto, é conjugado com a iluminação do município, que aí eu comecei a trabalhar na engenharia, fiz parte da engenharia municipal.

Onde era? O senhor trabalhava como engenheiro? Como eu fui engenheiro municipal da parte do Departamento de Iluminação Pública, eu fiz parte, aí que começou toda essa parte da iluminação da capital. É o Departamento de Iluminação Pública. Até hoje é, na verdade. Antes era a Eletropaulo. Agora... eu aposentei há três anos, faz três anos agora que eu estou aposentado, mas até questão acho que de um ou dois anos, a Eletropaulo foi sempre a empreiteira da prefeitura, da iluminação pública. Muita gente pensava que a Eletropaulo que fazia a iluminação. Ela faz a iluminação como empreiteira, mas quem dá diretriz toda é o Departamento de Iluminação Pública da prefeitura. Todos os materiais, toda essa parte é a prefeitura que fornece. E como era a iluminação antes da década de 70? Teve uma mudança?

Aqui, o bairro aqui, na década de... 74, foi na fase de 74, eu era engenheiro ainda, praticamente meio novo na prefeitura, comecei a trabalhar em 72 na prefeitura, aí o senhor Misumoto deu o primeiro, como podemos chamar, impulso, assim, pra criação, daquilo que chama de bairro oriental. Ele queria uma iluminação do tipo, alguma característica oriental... japonês... Pra dizer a verdade era mais japonês porque deu essa conotação oriental, mas primeiro era mais colônia japonesa que estava aqui realmente. Chineses e coreanos dava pra contar nos dedos, aí se fosse pra considerar, atualmente... Não, atualmente o domínio comercial aqui, até tem mais coreanos e chinês do que próprio japonês, talvez aqui no bairro oriental, mas na época era a colônia japonesa era dominante na parte comercial, aqui no bairro oriental. Mas foi em 74, mais ou menos, que iniciou-se o quê? “Vamos fazer alguma coisa, criar aqui na Liberdade, algo que existe já nos Estados Unidos, um bairro chinês, vamos fazer um bairro japonês, ou oriental.”, Pra não ficar bairro japonês, ficou melhor colocar um bairro oriental.

Então surgiu essa idéia na época, tanto é que na prefeitura aceitou, a parte da iluminação, fui um dos projetistas da iluminação porque eu era engenheiro da prefeitura, passou pelo nosso Departamento, fui designado pra destrinchar essa parte do projeto da iluminação do bairro oriental. Então, primeira coisa, veio a sugestão do senhor Misumoto, a parte da iluminação, era um tipo de... parecia um porta estandarte, com um monte de lâmpada pendurada, só que a iluminação, como nossa iluminação é de rua, a gente tem que seguir um certo padrão, podemos caracterizar talvez como bairro oriental, ajudar a parte de iluminação também, então vamos buscar.

Aí, como engenheiro eu fui buscar, eu e um colega meu, fomos buscar as origens: “Como é que é iluminado lá no Japão? Será que tem alguma coisa assim que possa caracterizar, alguma coisa típica assim?” Depois de vários estudos, revistas e toda essa parte, nós fomos no Consulado, de várias pesquisas que nós fizemos, chegamos à grata surpresa de que no Japão não tinha nada de iluminação assim que caracterizasse alguma coisa oriental, iluminação. Isso não existe, tudo isso aí é moderno... tudo que nós temos aqui tem lá, mas não tem nada assim típico que chame a atenção. Tem as propagandas, que é uma coisa assim de visual de, como se diz, a parte eletrônica, mas propaganda já de loja, não de iluminação de rua, esse tipo de coisa aí.. Então, vamos fazer o seguinte, a sugestão do senhor Misumoto, aquele tipo porta estandarte com um monte de lâmpada pendurada. É o seguinte, é uma lâmpada...

Antigamente, na época do samurai, era um lampião, que ficava pendurado, que dentro eles colocavam tipo vela... não digo vela, mas qualquer coisa pra poder acender, podia ser até vela, pra não apagar. Então era protetor, um lampiãozinho que pendurava assim. Tinha esse formato bem parecido que nós adotamos, então nós vimos aquele formato que antigamente na época dos samurais se utilizava, e pendurava no bairro japonês, na entrada assim que pendurava, então vamos adaptar esse formato. Também não é só esse formato que tem, tem um outro que é mais assim, meio... quase quadradão. Aí nós fizemos uma adaptaçãozinha. Se é pra a caracterizar então vamos encontrar alguma coisa que lembra os chineses, alguma coisa da China, do Japão, aquele formato lá, onde ficam penduradas as lâmpadas. E nós temos aí em cima do viaduto aquilo que se chama portal. Portal? Aquela grade, não?

R - Aquele portal se utilizava muito na entrada dentro do castelo, no templo, também tem alguma coisa assim, como o senhor Misumoto ia fazer esse portal, estava já em projeto, então vamos fazer alguma coisa também, no pendurar essas luminárias, estilo que pareça alguma coisa, porque dentro tem reator, porque tinha que adaptar a parte técnica, o objetivo era colocar o reator também. Senhor Sato, teve inauguração pra essa decoração? Teve. Como é que foi? Teve. Aí fizeram uma festa, teve até uma música que eles fizeram. Tem uma música, não sei bem exatamente lá, como canta, eu sei o ritmo mais ou menos.... Canta um pedacinho. Ah, não sei cantar (risos). Que quando tem esses eventos, eles juntos, de vez em quando eles tocam junto. Mas o que é que diz na letra da música, assim por alto? Mais ou menos, convidando que todo mundo participe da festa daqui da Liberdade, mais ou menos nesse sentido. Participar com alegria do festejo daqui da Liberdade, alguma coisa no sentido aí que tem, mais no sentido convidativo, assim, que a gente sente que tem.

O senhor tinha contado da época da inauguração do metrô, da construção do metrô, quer dizer... Construção do metrô eu participei dessa parte da iluminação, de alguns trechos da parte e tal. Alguma adaptação, mas isso já como engenheiro da prefeitura. E teve muito transtorno no bairro com a construção do metrô? A parte comercial foi muito afetada, principalmente na Avenida Liberdade, tanto é que maioria dos comércios fechou na época, porque levou um certo período, e os comerciante não agüentaram, porque eles fizeram aquele tapume. Pra dizer a verdade, abriram a avenida, que não foi, como se diz, subterrâneo, não foi túnel, eles abriram. Criaram uma vala? Pra depois fechar. Não veio aquela máquina? Não é do tipo tatuzinho, é do tipo aberto mesmo, vala aberta depois fechava de novo. Então, nessa daí, demorou-se muito, 70 até...

Quando foi? Foi seis anos, sete anos, mas depois pra recuperar o lado comercial, demorou anos e anos. As lojas faliram, fecharam? Muitos faliram ou fecharam, ou simplesmente transferiram, mudaram. De alguma forma se mudou daí, e até recuperar essa parte comercial levou muitos anos. E a Galvão Bueno, foi afetada? A Galvão Bueno não foi tanto assim, mais foi a Avenida Liberdade, o comecinho da Avenida Liberdade que foi a maior prejudicado na época da construção do metrô. E teve que mudar o trânsito, alguma coisa assim na época? Teve que fazer mudança no trânsito? Na Avenida Liberdade teve várias mudanças também. Teve uma coisa interessante, minha irmã comprou um bar onde está a estação São Joaquim, aí o metrô chegou lá, foi desapropriado, mas nisso aí tinha uma cantina, chamada 1012, minha irmã comprou essa cantina 1012 que era de frente, mas ela não sabia que estava no projeto de desapropriação, ela comprou foi desapropriada. De novo? De novo, duas desapropriações.

Aí ela pegou esse 1012, ela abriu o restaurante 1012, chama. Aqui na própria Avenida Liberdade, mas é mais próximo pra cá, mais pra baixo, e ela continua com isso daí até hoje: restaurante 1012. Só que ela mudou de lá agora e está aqui na Praça Carlos Gomes, restaurante 1012. Mas ela teve esse lance do metrô que duas vezes ela teve que mudar por causa do metrô. Eles pagaram direitinho? Pra proprietário não sei se pagou, mas ela não recebeu nada, que ela simplesmente era inquilino, né? Perdeu o ponto também? Perdeu o ponto, perdeu tudo, tanto no bar como na cantina. Eles não indenizaram o ponto, só a propriedade? Acho que propriedade só. O ponto acho que era alugado, né? E as festas aqui no bairro. senhor Sato? Quais são as festas mais importantes? As festas aqui, tem aqui do nascimento do Buda, né, que eles fazem no final do ano, a festa do ano novo, que eles fazem.

O senhor participa? Não, eu praticamente não tenho participado desses festejos aí, mas todo ano se faz. Tem Tanabata, festa do Tanabata, não sei se você já ouviu falar? Como é o Tanabata? Tanabata eles fazem... ultimamente tem feito todo ano. Tem uma historia, você sabe aí... O do pedido? É do pedido. Como é que funciona? Tem um príncipe e uma princesa que os dois se casaram e se apaixonaram e eles deixaram de trabalhar, aí puseram um castigo e separaram os dois, uma foi pra uma constelação, bem distante, oposto, constelação da onde que é mesmo? Outro dia eu estava vendo a historia do Tanabata... Eles separaram, aí cada um ficou num canto, numa outra constelação. Com o tempo eles começaram a produzir, cada um fazia a parte, então resolveram premiar eles, fazer um encontro, esse encontro que seria encontro anual, aí faz um pedido pra eles lá: casamenteiro essas coisas, tem um monte de coisa que... ou pede outras coisas que precisa também junto.

E que é que significa essa palavra, Tanabata? Tanabata tem esse significado da princesa e o príncipe... agora não vem na memória... o encontro desses dois, que está em uma e outra constelação, e encontra-se uma vez. Eles foram pro castigo porque eles deixaram de trabalhar, só viviam na moleza. Namorando? Depois que casou, ficou junto, aí deram um castigo pra eles e puseram numa constelação e na outra, segundo a história, só que depois resolveram premiar de novo, porque cada um começou a trabalhar direitinho no outro mundo deles lá, aí tem aquele encontro. Só uma vez por ano? É uma vez por ano. Pra não exagerar. Esse festejo aí da comemoração, então vão fazer o pedido pra ver se os dois também concedem alguma graça pra aqueles que fizeram o pedido. Esse é o sentido do Tanabata. Tem uma província que desenvolve isso daí.

E o lado religioso da sua família? Olha, o lado religioso da minha família é o seguinte, meus pais foram budistas, uma religião de raiz budista. Essa era a religião dos meus pais, isso uma certa fase, porque antes eles seguiam outra religião, por ordem lá do Japão, dos familiares lá. Aí nós mudamos pra essa religião. Aí meu pai imediatamente mudou pra essa daí, e começou a seguir essa daí. E qual era a primeira religião? Outro também era do segmento budista também, era esse que tem perto da Praça da Árvore, que tem no Cursino um templo, não tem? Era daquele lá. Antes. Depois mudou pra esse. Agora, eu, sempre o meu pai falava só japonês, fui ouvinte, pra dizer a verdade, até entrar na escola. Aí quando chegou com nove anos lá, por influência da minha professora, que era católica, e na época lá ela estava promovendo pra quem quisesse batizar todo mundo, aí eu achei que era interessante essa parte, ouvindo a minha madrinha, eu estou falando minha madrinha porque ela foi minha madrinha, essa professora foi minha madrinha.

Como é que ela chamava? Maria Tereza. E por influência dela eu abracei a religião católica, já com nove anos. Decisão própria? Mais própria porque meus pais: “Se você acha que é, está bom, você está no Brasil mesmo.” E meus pais eram do segmento budista, mas não era daquele que seguia à risca. Quer dizer: “Como você está no Brasil, se a professora acha que está aconselhando que é bom...” Tanto é que as minhas irmãs também batizaram na fase da escola dela e eu fui seguindo. Todo domingo eu ia à missa, eu andava quatro quilômetros, eu ia na fazenda onde eu morava pra ir assistir a missa lá da fazenda. Começava oito e meia, mais ou menos, ia lá. Todo domingo, andava quatro quilômetros da casa pra eu ir lá. Então, minha base religiosa é cristã mesmo. Só que com o passar do tempo, aí eu fui deixando. Quando estava fazendo o colegial, tal, assim, já fui deixando devagarzinho. Não fui mais católico, como deveria ser, de ir à missa. Participava de algumas missas, mas não estava seguindo mais. Seu casamento foi na Igreja Católica?

Não. Aí que está, é uma coisa interessante. Meu casamento foi na religião dos meus pais. Pra dizer a verdade, meus filhos tem batismo também na religião dos meus pais. Eles foram batizados lá, tem o batismo. Agora, eu casei lá porque meus pais eram da religião, então, eles não questionaram , mas eu fiz o casamento lá, eu lembro que fiz naquele estilo japonês, né, daquele de tacinhas, sabe? Então tem um significado. Não, como é que é? Não sabemos. Na própria igreja... São nove tacinhas que tem, são trocas de tacinhas. Eles põem saquê. Aqui no costume brasileiro o noivo e a noiva se beijam na frente do padre, mas japonês é mais sutil, orientais são mais sutis pra essas coisas. Então, na realidade, aquelas tacinhas é um entrelaçamento que está tendo.

Tem um significado lá, muitas vezes eu dava aula, contava essa história, a turma morria de dar risada: o noivo primeiro toma a primeira tacinha, aí essa tacinha vai pra noiva e ela toma na mesma tacinha, né? E volta essa tacinha, depois entra outra tacinha, daí, depois vem outra tacinha. Faz isso nove vezes seguidas. Faz três daquele lá, três a três, vai e volta e eu tomo de novo... Quer dizer, o fechamento é comigo, na verdade. Eu tomo, vai lá, então são três, vem outra tacinha faz mesma coisa, três tacinhas: três vezes três dá nove, não dá? Aí vai tomando? Vai tomando, tem um significado. Lá o Casamento é feito dessa forma, o casamento oficial japonês, esse estilo que normalmente é feito. Independentemente da religião também faz isso daí, então tem o significado da união, troca de taças, o compromisso que está assumindo no casamento, e a troca de tacas é o hábito. Talvez tenha algum significado nesse sentido, se cruzaram, né?

O homem bebe duas vezes cada tacinha então? Na hora que vai e na hora que volta? É, são nove vezes. São três, sei que foi três pinguinhos. Tem uma pessoa que coloca três pinguinhos de saquê. E o senhor aproveitava tudo isso pra dar aula de matemática? Não, eu casei eu estava dando aula na época, né? Então tinha os meus alunos, aí fui de lua de mel: "Como é que foi seu casamento? O senhor não ficou de fogo? Mas quantos beijinhos na taça o senhor deu?" Aí comecei falar da lua de mel, comecei a fazer o circuito que eu fui, tudo na brincadeira. A esposa do senhor era do bairro da Liberdade também? Minha esposa é lá de Araçatuba. Ah, é de lá? Eu conheci lá em Araçatuba. Como é que era a roupa do casamento de vocês? Como? A roupa, o vestido... Como é que era da noiva e do noivo? A noiva normal, vestido noiva mesmo, branco mesmo assim que usa. Não foi quimono? Não, no meu caso não foi quimono, o meu foi no estilo à brasileira mesmo, pus smoking.... Porque é uma cerimônia japonesa, budista? Mas no casamento assim eles não...

Não precisa? Não, têm rituais aí que o pessoal põe um tipo de vestimenta mesmo. Isso da época do meu pai. Aqui no Brasil não, mas na época do meu pai tinha um tipo de manta, o penteado da mulher muda tudo, aí já é diferente. Você tem fotos? Como? Fotos, do casamento? Ah, acho que lá em casa deve ter alguma foto. Senhor Sato, o senhor tem filhos? Tenho três filhos. E tem netos, não? Netos não tenho nenhum ainda. O caçula está com 23 anos, o mais velho está com 27, tenho uma filha de 24, outro de 23. E como é seu dia a dia hoje? Tanto é que acho que está fazendo... minha filha fez 25 ontem, tanto é que ia comemorar hoje, disse que ia não sei onde. Ah, dia 10 de Outubro, é verdade. Foi ontem, né? O outro em novembro já vai fazer 24, né? Como é que é seu dia a dia na atualidade? Na atualidade, eu estou dando uma mãozinha aqui no restaurante depois que aposentei, mas não devia nem estar aqui. É que minha irmã teve um probleminha, teve que sofrer uma cirurgia, então está em fase de recuperação, então eu assumi uma temporada, porque ela é minha sócia, né?

Ah, a sua irmã é sócia? Nós somos sócios aqui, recebemos de herança, então estamos tocando daqui. Quem começou foram meus pais desde 59, está aqui no pensionato, mudamos pra Restaurante Sato. Aí eu tive, praticamente... Na época estudante eu ajudava aqui servindo, até me formar. Depois que formei, aí sim, aí eu estava casado, aí minha esposa... ela também é professora, deu uns três anos de aula, daí achamos por bem que era melhor cuidar dos filhos, no caso estavam muito abandonados, se fosse deixar na mão de terceiros, aí no caso de empregada, então achamos melhor dar uma mão no restaurante e cuidar da criança ao mesmo tempo, e nesse intuito aí minha esposa ajuda a minha mãe, e minha esposa deixou de dar aula. Ela fez Filosofia. Que interessante. Aonde ela fez Filosofia? Filosofia, Geografia, né? Geografia? Ah, Faculdade de Filosofia? E aonde ela fez? Fez lá em Araçatuba.

Em Araçatuba. Mas quando o senhor não está aqui no restaurante, o senhor está fazendo o quê depois da aposentadoria? Como o senhor ocupa o seu tempo? Esporte é kendô, que eu gosto muito, acompanho meus filhos. Faz 18 anos que estou acompanhando meus filhos, já praticamente desde 82. Como que é o kendô mesmo? kendô é um esporte japonês derivado da arte marcial do samurai. Tornou-se um esporte. "Ken" é espada, "Do" é caminho: caminho da espada, kendô. "Do" é caminho e "Ken", espada, então kendô. Então é um esporte chamado kendô. E "Ken" não era província, o senhor tinha dito antes? Ah, "Ken" tem província também. "Ken", mesma pronúncia de "Ken", mas Ken é província. Por isso que em japonês muitas vezes tem que ver o ideograma pra entender realmente o significado. Às vezes tem a mesma pronúncia das coisas, mas tem o significado completamente diferente do imaginado. Só que não encaixa, quando você está falando do assunto logicamente não encaixa, mas entender mesmo, teria que ver o ideograma. Aí o senhor começou o kendô há quanto tempo? Junto com meus filhos, 18 anos já que estou lá.

O senhor pratica quantas vezes por semana? Três vezes por semana. Quer dizer, eu acompanho lá o pessoal, três vezes. Bastante, né? E por falar nisso, nós somos da escola da Associação Brasileira de Cultura Japonesa. Nós fazemos parte de lá, mas essa escola foi criada como Liberdade Kendô, na verdade. Há 18 anos passado, em 1982, surgiu como Liberdade Kendô, Liberdade aqui no bairro da Liberdade, aí nós ficamos uma boa temporada, mas não tinha um local pra podermos treinar, não tinha uma sede, aí começamos num porão, onde tem a Praça da Liberdade, onde tem galeria ali. Atualmente, no porão do estacionamento nós começamos treinos. O instrumento principal era cabo de vassoura, a criançada começava com cabo de vassoura. Pra fazer a espada? É, servir de ..., começou por aí. Aí foi devagarzinho, devagarzinho, cada um foi comprando a parte de seu instrumental pra poder treinar, e aí foi oficializada a formação da nossa escola, porque nós registramos essa escola direitinho como Liberdade Kendô, foi oficialmente, aí nós subsistimos com Liberdade Kendô até 1987. 87, 88...

A fundação inicial era Liberdade Kendô. E tinha muitos alunos no começo, quando era aqui? Não, tinha poucos alunos no início. Começou com meus filhos, eram cinco, seis alunos, depois foi aumentado gradativamente. Senhor Sato, conta pra gente assim, por cima, como é o kendô, é uma luta? Podemos dizer... Não é luta corporal, não tem nada quase de contato corporal. É mais na base destreza mesmo. De espada? É, de espadachim, esporte derivado da arte marcial dos samurais, então baseado mais no corte do punho, da cabeça e da barriga, na garganta. Em cima desse daí que está todo o fundamento do treino, baseado nisso daí... Esgrima? A grosso modo, esgrima, né? Algo assim, mas esgrima tem a regra dele e o kendô tem a regra dele. E tem uma roupa especial pra lutar o kendô? Como é que é? Tem um protetor de cabeça, tem o protetor daqui do peitoral, outro na altura da barriga e depois tem um tipo de luva, porque apoia naquele instrumento de bambu. Vocês evitam usar espada, é muito acidental? A grosso modo pra poder comparar, seria representando a espada, instrumento de bambu, aí tem os golpes que você tem que treinar no corte do punho, assim.

Se você bater diretamente não tem punho que agüente, então tem a luva protetora pra proteger a parte do punho e dos dedos. Senhor Sato, a gente já está terminando a entrevista, tem alguma coisa, enfim, do bairro, que o senhor goste mais? O que o senhor gosta mais daqui desse bairro da Liberdade? Bairro da Liberdade? Não sei, é difícil dizer o que eu gosto mais, eu gosto de tudo praticamente, tudo que envolve o bairro, porque praticamente a minha vida está aqui, né? Desde 14 anos que estou aqui, então eu aprecio tudo o que tiver no bairro aqui. Atualmente eu estava meio fora, não tinha ligado muito pra o bairro oriental, mas agora que aposentei eu estou sentindo que eu posso contribuir com alguma coisa, pra oferecer talvez alguma coisa, assim, para o bairro oriental. Então, com o tempo pode ser que devagarzinho eu comece a participar mais de alguma coisa dentro das associações, que tem do bairro oriental e de alguma forma levar a minha contribuição. Mas acho que aqui o bairro oriental quando foi criado, a gente nunca deve esquecer o seguinte, que a parte da iluminação pública naquela época foi mais visando, por parte da prefeitura assim, pra ser bairro oriental mesmo, não bairro japonês.

Sabia que a predominância era de japoneses, mas o intuito era nesse sentido que com o tempo fosse um bairro oriental, isso era a idéia da época. Tanto é que a parte de iluminação, quando foi feito, foi com esse objetivo, assim, da parte municipal, visão municipal da coisa. Tanto é que, como atualmente há uma predominância muito grande até dos chineses e coreanos, até os japonês já estão bem equilibrados nos setores aí. Eu sempre estou aí vou levar também essa mensagem, para que esse bairro cresça e fortaleça, principalmente agora que está tendo a globalização mundial. Por que não fazer com que a globalização no bairro também houvesse a abrangência de todos os orientais? E crescer em conjunto, fortalecimento do bairro oriental pra servir de exemplo também e servir de cartão de visita para aqueles que vierem visitar, tornar-se um comércio forte onde possa oferecer realmente produtos orientais aqui, e uma visão do que é um bairro oriental, cada vez mais levar alguma coisa aqui que caracterize um bairro oriental, independentemente de ser japonês, coreano ou chinês... Não tem nenhum...

Na minha visão eu sempre achei o seguinte, que não deveria ter esse negócio de esse é um bairro japonês, esse é um bairro chinês, se é um bairro oriental. É bairro do quê? De todos: chineses, coreanos e japoneses. Eu gostaria que essa mensagem fosse colocada. E tem um sonho que o senhor tem vontade de realizar? Sonho, sonho, eu não tenho, mas eu tenho aquele do que eu tinha dito, eu não falei pra você a parte final, eu não falei pra você a parte final aí, mas, quando eu disse do segmento da minha religião atual, não é bem religião, mas é parte da minha fé. Eu sou católico de princípio, agradeço muito por essa formação inicial, o desenvolvimento da minha fé, a fé cristã, né? Mas atualmente eu sou militante da Federação Espírita, do Kardecismo, o Kardecismo segue essencialmente a filosofia cristã, o Kardecismo é segmento da filosofia cristã, apesar que leva as mensagens de conteúdo assim, universal. Não existe esse negócio não sendo cristão, não tem nada que você possa alcançar, não tem radicalismo nenhum, podemos chamar isso de religião ou filosofia ou ciência, três coisas conjugadas ao mesmo tempo.

Se quiser dizer que é uma filosofia, ela pode ser considerada como uma filosofia, se quiser considerar como uma ciência, uma ciência, se quiser considerar como uma religião, uma religião também. Mas sempre ela leva uma mensagem universal, eu acho, tentando mostrar... no Kardecismo sempre mostra, nunca eles mostraram uma coisa assim de ritual, mas só o conteúdo da mensagem, o ensinamento que Jesus deixou como orientação, mas o que é orientação que tem no ensinamento de Jesus, também tem outros segmentos, por isso, quando falo universal é nesse sentido. No budismo, ou cristianismo, você vê o raciocínio da escola de Sócrates e Platão, dá impressão até que Jesus andou copiando os itens básicos do que foi dito, porque eles foram precursores, ele é considerado como precursor do cristianismo. Sócrates e Platão, se você vir, parece que Jesus andou até copiando o que foi dito uns 500 asnos antes de Jesus aparecer aqui na face da terra. Mas o que vale mais é a filosofia, e o Kardecismo mostra esse lado aí, então é por isso que eu abracei esse lado da parte da minha fé.

Levar mais esse lado do segmento não por questão de, como se diz, que tem que ser dessa forma, como única solução, mas uma das variantes da solução que possa levar a minha fé. Então, nesse sentido, é o meu objetivo, e cada vez mais eu sou militante da Federação Espírita da Cidade de São Paulo. E com o passar do passar, dedicar um pouco mais do que estou dedicando da parte da minha fé. Nesse sentido que eu tento buscar agora. Então muito obrigada pela sua entrevista. De nada. Foi ótima!

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